A distância entre nós
Martha Medeiros
O best-seller da indiana Thrity Umrigar, A Distância Entre Nós, conta a história de duas mulheres que vivem realidades bastante distintas, mas que, ao mesmo tempo, estão próximas não só por viverem na mesma casa (são patroa e empregada), mas por terem sofrido, cada uma a seu modo, as humilhações impostas por uma sociedade machista. A história se passa em Bombaim, mas poderia acontecer em qualquer capital brasileira, guardadas as diferenças culturais. A despeito dos acontecimentos que narra, o livro vale mesmo é por trazer à tona algumas reflexões sobre distância e proximidade, duas coisas que, quando se tornam uma só, geram conflito na certa.
Vivemos hoje neste incensado mundo sem fronteiras, globalizado, automatizado, voyeurizado: basta teclar no "enter" e você está em qualquer lugar, com todas as informações no seu colo, vendo e escutando o que quiser. Por um lado, é fascinante; por outro, não há mais personalização: somos público, somos massa, somos o todo. Não nos é dada a alternativa de estar ausente, de ser alguém difícil de encontrar e de identificar.
Perdemos o direito ao segredo, ao mistério e ao silêncio - tornaram-se coisas quase ilícitas. Ser uma pessoa reservada e discreta, hoje, desperta desconfiança, e não respeito. Solidão, aquela que já inspirou tão belos poemas, passou a ser considerada uma doença. Se estamos tristes, logo surge alguém recomendando uma medicação. E intimidade você não consegue ter mais nem consigo mesmo, tantas são as requisições externas, tanta é a dificuldade de se conectar com emoções verdadeiramente autênticas, à prova de manipulações. Livros, revistas e sites nos dizem como viver e o que sentir, como vencer obstáculos e como ser feliz. Mas e se você não quiser ser feliz, quiser apenas viver? O quanto de espaço e liberdade tem para isso?
O mundo virou um favelão com gente amontoada, uns assistindo à vida dos outros, todos sendo cozinhados na mesma fervura. Estamos próximos demais dos escândalos do vizinho e das fofocas de Los Angeles, próximos demais de uma bala perdida e de um estranho que virou melhor amigo pela Internet, próximos demais dos piercings íntimos de uma atriz e da nova descoberta científica mundial, próximos demais do perigo, do prazer e de pessoas que não conhecemos. Sem falar que há uma vida não requisitada que a todo instante entra pelo computador e pelo celular: promoções que você não está interessado, mensagens que você não quer receber, notícias que não lhe dizem respeito. Você está dentro. É ingrediente do mesmo intragável cozido.
Desejar o que neste ano que, de certa forma, ainda está no começo? Um pouco de arejamento, de área livre para se deslocar. Menos sufoco, mais tranquilidade. Menos certezas absolutas, mais tempo ocioso, não preenchido com informações inúteis. Distância do que nos agride, distância do que nos perturba, do que nos vulgariza e nos ridiculariza. Distância para manter o discernimento, ter perspectiva. Quando embolados, não enxergamos o horizonte e é comum que nos atropelem e machuquem. Não sei você, mas não me sinto bem em lugares com lotação esgotada e poucas rotas de fuga. Pois é desta claustrofobia que falo, da impressão de estar num planeta superlotado, com todos respirando no seu cangote, espiando por cima do seu ombro, observando seus passos e tentando adivinhar seus pensamentos e desejos mais íntimos. Todos tão perto e longe como nunca.
Domingo, 1º de abril de 2007.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.